Convite a quem nos visita

sábado, 24 de Dezembro de 2011

Carta ao Menino Jesus

Menino Jesus:
Chegou o Teu Natal? - Tu que és o autor principal do Natal ou da festa, como tão bem gostamos de dizer na nossa terra? Como vás passar o Teu dia de Festa, é certo que te aconchegas nos braços da Tua mãe envolto em paninhos amarelecidos de pobreza e de tempo? Porém, não será melhor pensar que o Teu Natal acontece nos corações cheios de paz e de amor? Não estavas Tu naquela casa onde se fez festa a sério, naquela família que unida saboreou o prazer da alegria? Não nasces em todos os lugares onde o abraço amigo e fraterno é a realidade mais visível? – Sim, nasces na terra da esperança e do amor. Por isso, o Natal não é Teu, mas é o nosso Natal. É assim, que vejo o Natal, porque um Deus não precisa de nascer, nós sim precisamos, cada ano renovar esse horizonte de vida nova, porque somos criaturas e se não nascemos morremos e o Pai/Mãe que nos mostras não nos criou para a morte, mas para a vida sempre renovada e em abundância como nos ensinas no Teu Evangelho.
Bom, Meu Menino-Deus, será que nos apercebemos de verdade que de facto tudo nascestes e estás aí em todos os rostos que se cruzam pela rua? - Naturalmente, que haverá de tudo um pouco. Muitos ficaram apenas no prazer do dar e receber ofertas materiais, outros ficarão com a abundância da comida e da bebida que por estes dias quase todas as casas apresentam. Outros ainda não perceberam o que significa «nascer» um Deus no meio de nós. Por fim, haverá outros ainda que perceberão e desde essa hora a sua vida muda radicalmente, porque repudiam o que era velho e nascem de novo para o amor.
Menino Jesus, é preciso descobrir que nascer é sempre uma graça cheia de prazer. Mas o Teu Natal ainda está cheio de inquietação. Por isso, naquele dia em que me levaste por algumas portas, lá estavas moribundo sobre enxergas de sofrimento e de dor. Na casa da D. Laurinda com 98 anos, com o seu corpo magro e parado, mas com um cérebro lúcido e a fazer-me inveja, vi claramente o sofrimento e a solidão. Também Te vi na casa da D. Conceição e da D. Encarnação, que dominadas totalmente por uma trombose, lá estão na cama e na dependência total de terceiros. Estavas também, muito provavelmente, na casa de outros irmãos sem memória, porque a perderam, crianças autênticas em corpos idosos e adultos. Porém, mais forte foi encontrar-Te caído no chão sem Te poderes levantar para a cama disponível ali mesmo à Tua beira. São muitos ainda os lugares e os corações onde não é possível nascer...
Para mais este Natal, uma vez mais recebo palavras de estímulo e votos de Bom Natal ou de Boas Festas. Mas também perscrutei uma lágrima, um grito de sofrimento, a me dizer «que Natal vou ter aqui moribundo nesta cama». Não quero porém deixar de referir que ao lado destes universos de dor sofrida, está uma multidão de gente entregue aos cuidados dos outros. Os familiares, assistentes domiciliárias e pessoal de enfermagem ou médico são autênticos heróis que se entregam totalmente ao bem-estar destes irmãos que não saboreiam o sentido do Natal. Menino Jesus, felizmente, nasces em muitos corações e em muitos lugares da vida deste mundo.
Nascer é sempre uma festa. O Teu nascer é a festa das festas pelo que és e pelo que significas no coração de todos aqueles que Te acolhem como sentido para a vida. Não resisto a partilhar contigo o belíssimo poema que dias antes de um Natal recebi num postal de Boas Festas, com o seguinte título: «Natal», do autor Moreira das Neves. O prazer que senti ao ler este poema foi muito grande, porque mais uma vez descobri que o Natal não pode ser apenas de há dois mil anos, mas um acontecimento de cada momento da existência de cada um de nós.
Menino Jesus, diz o poema assim: «Seja cada presépio a nossa casa / Transformada no mais florido altar, / Um pedaço de sol em cada brasa, / Uma estrela no céu em cada olhar. / Seja o Natal das prendas uma prenda / Que não esqueça o mundo humilde e mudo, / Seja a verdade a dominar a lenda, / A verdade primeiro e mais que tudo. / Seja o Natal fraterna comunhão / Com os pobres sem pão e sem lareira, / Não haja, em parte alguma, coração / Que, por Jesus, não ame a terra inteira. / A voz das almas, se una à voz dos sinos: / - Glória a Deus! Para os homens, paz e bem! / Todos, pelo Natal, somos meninos / A beijar o Menino de Belém...».
Tu e só Tu Menino Jesus podes inspirar-nos a saber colocar na pequenez da vida uma dose elevada de alma. As coisas não nos servem nem servem ninguém sem um espírito ou sem uma alma que lhes dê sentido e lógica. Por isso, com mais este Teu Natal queremos fazer-Te nascer no mais pequeno gesto, na mais corriqueira palavra e na mais quotidiana das atitudes. Deste Teu Natal queremos dar sentido, no anonimato da vida diária, às mais singelas coisas e mais queremos ainda fazer corresponder tudo com a lógica do amor que salva. O Teu Natal deu-se na gruta do amor, daí nasceu uma luz ou um pequeno brilho que deu resposta à mais profunda e densa inquietação que nos persegue durante esta vida.
Menino Jesus termino esta minha carta com um propósito. Não desejaria que as palavras cheias de boa vontade, de doçura e de encanto não fossem apenas deste tempo, mas que fossem também reflexo constante em todos os momentos e lugares da nossa existência. E, por fim, ofereço-Te também as palavras de Ruy Cinatti na sua «Arte Política»: «Com o impossível fazem-se milagres / com o possível fazem-se milagres a menos». Menino Jesus, fica bem no coração de todos os que Te acolhem no cantinho quente do coração.
José Luís Rodrigues

4 comentários:

lucia disse...

Divina Carta...belíssima! Destaco o trecho: "Como vás passar o Teu dia de Festa, é certo que te aconchegas nos braços da Tua mãe envolto em paninhos amarelecidos de pobreza e de tempo?" Quanta ternura e intimidade ao falar com o Menino-Deus! Digna de ser lida numa igrejinha vazia, quando todos saem da celebração na Noite de Natal aí sozinho(a) com Ele, lá quietinho no Sacrário, fazer essa leitura em forma de prece!!!

Maria-Portugal disse...

Que bonito ,que sentido este seu post,tão cheio da proximidade de Jesus .

Fiz um pequeno poema a Ele dedicado:

O meu Menino Jesus não é de metal,de cerâmica, mesmo de marfim...

O meu Menino Jesus multiplica-se hoje e sempre aos milhares , milhões sem fim...

Em presépios abandonados pelas serranias...

Ou em quentes estepes, embalado
por outras Marias ...


É esse o Menino que beijo cada dia
Em cada Natal de Jesus...

Marilu disse...

Querido amigo,

Ter asas é viver intensamente as coisas simples e belas do dia a dia.
Ter asas é ficar em silêncio e ouvir dentro da gente, o Deus que habita cada coração.
É isso que lhe desejo para o Ano Novo que está chegando...
Que você tenha asas como as águias.
Que a lua e as estrelas emprestem um pouco do seu brilho, para iluminar o Novo Ano,
e que Deus nos dê "Asas de Águia" para voarmos bem alto na construção de um mundo melhor.
Tenha um Feliz e abençoado Ano Novo ao lado daqueles que você mais ama. Beijocas.

José Luís Rodrigues disse...

Muito agradecido cara amiga Marilu, desejo-lhe também igualmente para o novo ano que nos bate à porta. Tudo de bom. Um abraço amigo e fraterno.